Mãe relata tentativa de sequestro da filha e racismo em Minas Gerais

By 29 de junho de 2017Notícias
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Um post publicado no Facebook nesta segunda-feira (26) foi compartilhado por milhares de pessoas. No texto, Jamille Edaes relata a situação desesperadora pela qual passou em uma parada de ônibus na cidade de Perdões, em Minas Gerais. Ela conta que vinha de São Paulo a Belo Horizonte e, na segunda vez em que o veículo estacionou em um estabelecimento na estrada no meio do caminho, aproveitou para ir ao banheiro com a filha, Manuela, 1 ano e 5 meses. “Na saída, uma moça bonita, com aparentemente uns 30 anos, deu a mão a ela. Achei que ela estava brincando, quando, do nada, essa moça começou a gritar: ‘SOLTA A MINHA FILHA’”, escreveu.

Na hora, Jamille ficou sem reação. Em seguida, tentou pegar a filha no colo e sair de perto. Segundo ela, nenhuma das pessoas que estavam no local fez nada. “Quando um rapaz (funcionário) chegou perto e perguntou o que estava acontecendo e ela respondeu: ‘Essa preta roubou a minha filha’”, conta a mãe, que é negra. A filha tem a pele mais clara. O funcionário teria perguntado, então, o que Jamille fazia com a criança no colo. “Respondi: ‘essa criança é minha filha’. Ele perguntou se eu tinha como provar. Ahn? Como assim, eu ter que provar que minha filha é minha filha? Fiquei desesperada, sem saber o que fazer”, escreveu.

Na publicação, Jamille disse que, nesse momento, a outra mulher puxou uma certidão, provavelmente falsa, alegando que tinha como provar que era ela a mãe da menina. “Vi meu mundo cair. Pegaram minha filha do meu colo e entregaram a ela. A vi andando em direção ao carro com a minha filha no colo. Corri. Chorei. Pedi ajuda e todos falavam: ‘Ela não é sua filha. Ela é branca. Ela não se parece com você. Pelo amor de Deus! Como assim? Minha filha não é minha filha porque eu sou negra? O pai dela é branco e ela realmente se parece mais com ele do que comigo. Me seguraram, quiseram me bater, falaram que eu estava sequestrando uma criança”, contou.

De acordo com a mãe, os outros passageiros estavam inicialmente ao seu lado, mas, quando a outra mulher mostrou a certidão, os olhares mudaram. Ela reforçou ainda que anda sempre com o RG e com o CPF da pequena na bolsa. Então, pegou os documentos e pediu que perguntassem à menina: ‘Cadê a mamãe?’, além, é claro, de chamar a polícia.

“O motorista do ônibus falou que não iria me esperar, pois tinha horário. Ou eu ficava e fazia o boletim de ocorrência e ficava presa em uma cidade a quilômetros de distância da minha casa ou ia embora com eles. Precisei entrar no Facebook, mostrar fotos grávida, mostrar fotos do hospital, do nascimento dela, para, assim, acreditarem que a menina branca era filha da mulher negra! ABSURDO, PRECONCEITO, DESCASO!!!!! Estou sem acreditar até agora que isso tenha acontecido comigo. Por fim, depois de mostrar nossos documentos e fotos, me ajudaram a pegar a minha filha… E aquela mulher ficou lá gritando e as pessoas que a contiveram ficaram aguardando a chegada da polícia. Eu vim embora com uma sensação horrível de que isso ainda vai acontecer muitas e muitas vezes. Por causa do racismo e preconceito quase eu perco a minha filha”, finalizou a mãe, cujo perfil não está mais no ar no Facebook.

CRESCER tentou contato com alguns familiares dela, mas não obteve resposta até o momento da publicação da nota.

CASO EM INVESTIGAÇÃO

Conversamos com a assessoria de imprensa da Polícia Civil de Minas Gerais, que informou que está apurando o caso. De acordo com o órgão, estão sendo analisadas as imagens das câmeras de segurança do estabelecimento. Os funcionários e as testemunhas também serão ouvidos.